sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Eu e Portugal também tivemos a sorte de ter tido Urbano Tavares Rodrigues - SER de excepção!





“Lembro-me de um dia, por volta dos meus 7 ou 8 anos, ter recebido como presente uma caixa de guaches de todas as cores.
 O desenho nunca foi o meu forte, mas julgo que nessa altura ainda não tinha tido oportunidade de chegar a essa triste conclusão e haviam-me criado condições para montar o meu pequeno atelier no quarto da costura da enorme casa dos meus avós.
 Não sei que outras obras de arte teria feito antes, mas quando entraste na sala, nesse dia, estava eu a terminar o vestido radioso de uma menina que habitava uma paisagem campestre, cheia de árvores e flores.

Era minha intenção acrescentar inúmeras bolinhas brancas à sua saia rodada, mas mergulhara desordenadamente o pincel na tinta e um enorme borrão tinha caído no chão do desenho, manchando também o meu momento.
 Tu aproximavas-te da secretária.

 Era tão raro visitares-me enquanto brincava!

 Rodei as cerdas do pincel em círculos rápidos e meticulosos, de aparente concentração.

— Que é isso — perguntaste. — Que estás a pintar?
— Uma menina — disse, sem desviar os olhos do trabalho. — Uma menina no campo.
—Ah, muito bem — ias concluir já de saída, quando um meio sorriso um pouco condescendente te reteve mais um pouco.

— E isto? — quiseste saber, apontando para o borrão de tinta branca que eu não parava de aumentar.
— Isto é a lua — respondi.
— A lua no chão? — estranhaste.
— Sim, a lua no chão.
 O teu rosto tornou-se então grave. Sério. — A lua no chão — repetiste.

— Mas isso é lindíssimo! — e saíste triunfante, a folha de papel almaço entre as mãos, declarando naquele teu tom de voz quase em contralto que termina num murmúrio de verdadeiro êxtase:
— Isto revela um imenso sentido poético!
 Dias depois o meu «quadro» surgia emoldurado. Andou por essa casa durante anos e anos. «A tua lua no chão» como sempre lhe chamaste.

 Ainda hoje penso muitas vezes se as coisas belas o têm de ser obrigatoriamente à partida — enquanto ideia, elemento estético — ou se podem construir-se no material dos erros, dos borrões, rodando as cerdas dos afectos em longos círculos de tinta branca. Criando luas.
 Julgo que sim.

 Mas julgo também que, para que tal aconteça, é necessário que alguém, alguma vez, tenha sido capaz de olhar para o nosso trágico engano, para a nossa pinta derramada do vestido, emoldurá-lo, dar-lhe um pedacinho de parede e murmurar nesse exagero alquímico dos afectos «Isto é lindíssimo!»

Eu tive essa sorte.”

 Texto de Isabel Fraga (filha de Urbano Tavares Rodrigues)publicado no facebook
http://andromeda-aquieagora.blogspot.com/2013/08/eu-e-portugal-tambem-tivemos-sorte-de.html

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